A cada dois dias, uma adolescente entre 13 e 17 anos dá à luz em Bauru

Em 2019, 195 adolescentes tiveram filhos na Maternidade Santa Isabel; Conselho Tutelar de Bauru propõe grupo de apoio

No ano passado, 195 adolescentes entre 13 e 17 anos deram à luz em Bauru, o que equivale a um parto realizado a cada dois dias. A estatística considera apenas os nascimentos registrados na rede pública de saúde, mais especificamente na Maternidade Santa Isabel.

O dado foi divulgado pelo Conselho Tutelar ao JC nesta que é a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, promovida de 1 a 8 de fevereiro. Ela ocorre junto com a Campanha Nacional de Prevenção à Gravidez na Adolescência, lançada nesta segunda-feira (3) pelo governo federal sob o lema “Adolescência primeiro, gravidez depois”.

Presidente do Conselho Tutelar 1, Casemiro de Abreu Neto avalia que o volume de meninas que se tornam mães nesta faixa etária tem aumentado ao longo dos anos na cidade. Devido a este sentimento, ele adianta que pretende mobilizar segmentos da sociedade para formar um grupo que possa prestar suporte mais adequado a estas adolescentes, no sentido de minimizar os impactos da chegada precoce de uma criança na vida destas mães.

A análise da realidade local feita por Abreu Neto difere dos dados regionais, que apontam tendência de queda no número de mães adolescentes. Segundo o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Bauru, em 2019, 2.094 jovens com menos de 20 anos deram à luz na região, totalizando 16% do total de partos realizados na rede pública.

Já em 2018, foram 2.507 partos (17% do total regional) e, em 2017, 2.683 (18%). Em Bauru, a intenção de Abreu Neto é formar um grupo com representantes do Conselho Tutelar, do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Maternidade Santa Isabel, Secretaria Municipal de Saúde e Ministério Público, nos mesmos moldes de como funciona hoje o grupo de gestantes de risco, que realiza reuniões mensais para tratar sobre a situação de mulheres grávidas que não fazem os pré-natais corretamente, algo recorrente entre usuárias de drogas.

“Hoje, a mãe adolescente conta apenas com o aparato de saúde, das unidades básicas. Mas ela precisa ter um acompanhamento mais amplo, que abranja suas dificuldades na escola e dentro da família. A vida desta jovem e do bebê pode ter prejuízos significativos sem este suporte”, analisa.

ACONSELHAMENTO

Além de uma rede de apoio às mães precoces, Abreu Neto defende a instituição de programas de aconselhamento aos pais de adolescentes dentro das escolas, para que estes possam melhor orientar seus filhos. “O jovem não tem muito discernimento sobre as coisas, embora acha que tenha. Se ele tiver orientação correta dentro de casa, fica mais protegido”, pontua.

Segundo o conselheiro, a sexualização precoce e a incapacidade das famílias de impor limites aos filhos estão entre as principais causas do volume significativo de meninas que se tornam mães. Estudos apontam, ainda, que contribuem para esta realidade fatores como baixo grau de escolaridade, condições financeiras precárias, falta de perspectivas para o futuro e baixa adesão aos métodos contraceptivos disponíveis.

Dentro da nova Campanha de Prevenção à Gravidez na Adolescência, a abstinência sexual foi indicada pela ministra Damares Alves como uma das políticas públicas a serem adotadas. A estratégia foi alvo de críticas de órgãos como Sociedade Brasileira de Pediatria e a Defensoria Pública da União.

Êxito

Por meio de nota, o DRS de Bauru avaliou que a diminuição do número de mães na adolescência na região reflete o êxito de políticas públicas adotadas no Estado e da qualificação de equipes de serviços de saúde. “A conscientização coletiva e a consolidação de serviços específicos sobre esse público, a exemplo das Casas do Adolescente, bem como a distribuição gratuita de preservativos e contraceptivos em todo o Estado, foram fundamentais para a redução dos casos”, destaca.

‘Mudou tudo na minha vida’, conta jovem que foi mãe aos 13


Tainá Vétere

Adolescente teve filha aos 13 anos e ficou um ano sem ir à escola em função da maternidade

Foram dois anos de namoro, a pílula anticoncepcional esquecida durante uma semana e a notícia, pouco tempo depois, da gravidez aos 13 anos de idade. Hoje com 15 anos, C.V.S.B. (o nome foi preservado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente) se tornou mãe aos 14 e, depois que a filha nasceu, ficou quase um ano sem ir à escola.

Por sorte, contou com a ajuda da unidade de ensino e, depois de apresentar trabalhos escolares, conseguiu passar de ano. “O primeiro ano do bebê é bem complicado. Quase não dá tempo para nada e eu dormia pouco. Mas, neste ano agora, voltei para a escola”, conta ela, que sonha, um dia, ser médica veterinária. “Não quero parar de estudar, não”, projeta.

O pai da criança também é jovem. O namoro dos dois terminou no final da gravidez e, hoje, C. leva a filha para visitá-lo esporadicamente. Ela diz que não recebe pensão alimentícia e que todos os custos são garantidos com o dinheiro que a avó da criança ganha fazendo trabalhos manuais.

“É uma responsabilidade muito grande. Ter um bebê mudou tudo na minha vida. Não posso sair mais, ficar até mais tarde na rua. Antes, eu saía bastante. Mas, se pensar bem, é até melhor eu ficar dentro de casa. Evita muita coisa”, analisa.

A adolescente conta que está namorando de novo e, há um mês, desde que o efeito da injeção anticoncepcional terminou, não usa qualquer método contraceptivo. Ao mesmo tempo em que diz não ter medo de ficar grávida novamente, confessa que não planeja ter mais filhos.

“Agora, quero continuar estudando e começar a trabalhar logo, fazer qualquer coisa para ajudar em casa, porque o dinheiro é pouco e, às vezes, a situação fica difícil.”

Fonte: JCNET